Este relato é de autoria de Adriel, descendente de Kadiel, descendente de Dokiel, descendente de Aariel, descendente de Samiel, descendente de Saulot, descendente da Segunda Geração, descendente de Caim.
Nestas linhas inicio um relato minucioso de como meu caminho se cruzou com os do nosso clã pela primeira vez, no tempo em que eu ainda caminhava entre os mortais.
Era início do inverno quando minha família se mudou novamente para o vilarejo próximo do rio. Desde que eu nasci nos mudamos para lá apenas duas vezes e só o fazíamos quando tempos difíceis estavam por vir. O inverno seria um dos mais rigorosos, daqueles que não enfrentávamos em anos. Sempre lutávamos contra a fome e os frutos escassos no campo nessas épocas.
Irina, minha irmã caçula, parecia animada com a perspectiva de conhecer um lugar novo e próximo do rio. Ela nascera e vivera todos os seus seis anos sem que precisássemos nos mudar.
O vilarejo sempre fora um lugar simples. Era um local para onde as pessoas de outras regiões em situações como a nossa costumavam migrar. O rio ficava cheio durante grande parte do ano, alagando uma extensa faixa de terra nas margens, enchendo-a de um tipo de limo que ajudava as plantas a crescerem na vazante, que geralmente era na época do inverno.
Dessa vez a vila parecia um pouco diferente. Havia uma construção nova, algo como uma capela. Meu pai achou uma boa idéia ter uma capela nas proximidades. “É sempre bom nos achegarmos a Deus em momentos difíceis”, ele dizia.
A capela era fechada durante o dia, porque os sacerdotes se consagravam e faziam suas orações nesse período e, durante a noite, os fiéis poderiam freqüentá-la.
A noite no vilarejo era cercada de histórias e lendas. Alguns falavam sobre “ladrões de alma”, “demônios da noite”, fantasmas e afins. Eu nunca dei muito crédito a isso e, quando nos mudávamos pra lá, sempre saía à noite. Não pra desafiar esses “perigos noturnos”, que soavam pra mim como histórias provincianas sem importância, ou para desafiar meus pais que me proibiam terminantemente de sair obrigando-me a fugir no meio da noite, mas porque o ar era mais fresco, mais respirável e me ajudava a pensar e lembrar melhor das coisas. Eu me sentava à margem do rio que secava e ficava imaginando como seria minha vida se eu tivesse tido coragem de largar tudo e aceitado o convite do capitão da milícia para servir nas fileiras do exército.
Esse era um sonho que me acompanhava desde a infância: ser um soldado. Nem passava pela minha cabeça a idéia de morrer como um camponês que migra de acordo com a vontade da natureza. Eu queria mais, mas o Senhor queria algo diferente da minha vontade.
Meus pais já eram de uma idade considerável quando Irina nasceu. E Irina foi um dos motivos pelos quais eu não larguei tudo e fui treinar no exército, assim que completei meus quinze anos. Quando o capitão me chamou para integrar suas fileiras, Irina havia acabado de nascer. Era uma situação difícil: cuidar de meus pais e de Irina ou abandoná-los à própria sorte e perseguir meu sonho. Eu não conseguiria ser tão egoísta.
Mas o sonho não havia morrido e eu ia à beira do rio todos os dias para lembrar a mim mesmo que eu não poderia deixá-lo morrer. Meu pai havia servido ao exército e ele conhecia o “espírito de guerreiro inquieto” que havia em mim. Por várias vezes tentou me compensar da decisão difícil que eu havia tomado treinando comigo. Até hoje carrego a espada com a qual ele me presenteou numa das nossas últimas sessões de treinamento; uma arma primorosa e de valor inestimável para mim.
Meus pais passaram a freqüentar a capela com certa regularidade. Irina não gostava de ir e sempre voltava extremamente perturbada desses cultos. Sempre que meus pais a levavam à capela ela, invariavelmente, tinha pesadelos. Eles me convidavam, mas nunca me pressionaram a ir. Eu achei tudo estranho ao redor disso tudo, mas eu estava mais preocupado em me livrar de meus próprios demônios.
E, como em toda noite, eu saí. O clima estava ameno e eu me sentei numa pedra que margeava o rio. Eu olhava as águas, negras por causa da noite, enquanto me lembrava das histórias que meu pai me contava quando criança, sobre as batalhas que ele participara. E devaneei por alguns minutos, ou horas, não sei ao certo.
Levantei os olhos e percebi que a lua crescente passeava sobre minha cabeça com um tom avermelhado. Eu a observei por alguns minutos a fio e decidi ir para casa. Tudo parecia muito calmo. Era como a calmaria que precede a tempestade. E eu não sabia que o vento já estava soprando nas velas.
